quarta-feira, 30 de março de 2016

Dessas vezes que sentimos amor

Talita gosta dos olhos de Carlos, ela vê amor quando olha para eles.
Tem pouco tempo que ela o viu pela primeira vez, mas faz muito tempo que ela não se entrega para ninguém como fez naquela casinha rústica de madeira roxa.
Era segunda-feira, 10 horas da manhã. Talita estava costurando sua nova coleção de plissados quando recebeu uma notificação de Carlos: Olá, moça, tudo bem? Como passou o feriado? Espero que seus ovinhos pintados tenham feito sucesso com as crianças do sul. Quero te ver.
Talita começou a tremer, até desligou a máquina porque sabia que não conseguiria se concentrar em mais nada. Seu corpo já estava produzindo impulsos demais.
Isso sempre acontece quando recebe suas mensagens. Respirou fundo e respondeu: Bom dia. Tudo bem. A viagem foi ótima. As crianças amaram. Como vai a chuva por aí? Eu estava terminando o pedido da Lili, mas esse barulhinho de gotas pede abraço.
         Quase que de imediato o celular vibrou: Então me abrace.
   -Agora?
 -Daqui a dez minutos. Te espero. Beijos! 
Talita não sabia aonde isso ia dar. Suas mensagens eram despretensiosas. Ela pensou apenas estar jogando um jogo de palavras. Mas não era só isso. Agora ela sairia das telas.
Deixou tudo como estava, colocou a sandália azul que combinava com seu conjunto floral, tomou um grande gole de chá e saiu. Não se importaria com a chuva.
Foram os vinte minutos mais longos e desesperadores da sua vida. Ela sempre passara pela rua dele mas nunca notou aquela casa, hoje sim.
Talita parou e ficou admirando, pupilas dilatadas, respiração acelerada. Desceu da bicicleta e a deixou na cerca.
Tocou a campainha e esperou uns dois minutos. Tempo suficiente para pensar em sair correndo e sumir. No meio do pensamento a porta se abriu.
A partir daí não se sabe mais o que aconteceu com aquela baixinha dos cabelos castanhos e molhados pela chuva. Sua vida virou de cabeça para baixo.
Esqueceu-se de suas convicções, obrigações, regras, gostos, pessoas. Não lembrava mais quem ela era, tudo se espalhou na sua cabeça. Peças soltas num universo sem gravidade.
E foi assim, nenhuma palavra, apenas a entrega.
Como um flash, tudo e nada passou pela sua mente. Medo, desespero, amor, prazer, desprezo, liberdade. Ela não sabia como tinha parado ali.

Talita gosta dos olhos de Carlos, mas ela não sabe se tornará a vê-los. 
        Aquela manhã de segunda-feira foi como um flash, um sonho. Ela não sabe como chegou naquela casa, ela não sabe como saiu. Muito menos sabe o que ali aconteceu. Ela só sabe que viu o amor, ele tinha a cor mais linda do mundo, mas não teve coragem. 


Certificou-se de desviar o olhar antes que aqueles penetrantes olhos invadissem o seu coração. 

terça-feira, 29 de março de 2016

Devaneio

Tal qual entorpecentes 
Me tira da órbita 
Me desnorteia 
Paralisa os pensamentos 

Tal qual a criação
Converto-me em essência 
Sentidos e sentires
Vibrações e impulsos 

Pulsos que pulsam 
em conjunto,
Em uníssono 

Eis aqui 
O devaneio. 
Transbordemos. 

quarta-feira, 16 de março de 2016

Transpareceu

Estou fadada a esse amor 

É de domínio público 
E todos sabem
Minha cara de menina boba
Minha ânsia de mulher apaixonada 

Uma serenidade 
Que permeia a loucura 
Uma loucura
Que beira à insanidade

É amor, sim
É amor que não liga para as palavras
Que não pergunta a lógica 
Que não espera o momento certo. 

É impulso e pulso
É raio em campo de boiada
"Salve-se quem puder!"
Gritou, um amigo

Já era tarde. 

Estou fadada a te amar
Plebeu de olhos castanhos
Estou fadada a esse amor
Mudo e infinito. 



terça-feira, 1 de março de 2016

Morta de fome

Se nossas fomes fossem iguais
Nós mataríamos o mundo
De inveja 

Nós mataríamos a fome 
No nosso mundo

Consumiríamos até a saciedade
Até ficar plenos e inteiros 
Desse sabor que tanto buscamos

Se nossas fomes fossem iguais
Mataríamos elas aqui
Agora. 

Certo

É que eu acho que a gente daria certo
Mesmo dando muito errado

Mesmo se perdendo no diálogo
Sempre deixando algo passar

Acho que daríamos certo 
Porque apesar dos desencontros 
Nossos corpos se encontram
Nossas mentes não se largam. 

Daria certo
Porque eu aprendo com você
E você se sente bem comigo

Não é bem certo
Que daria certo
Mas é certo que eu te quero
E você não nega isso.