Talita gosta dos olhos de Carlos, ela vê
amor quando olha para eles.
Tem pouco tempo que ela o viu pela
primeira vez, mas faz muito tempo que ela não se entrega para ninguém como fez
naquela casinha rústica de madeira roxa.
Era segunda-feira, 10 horas da manhã.
Talita estava costurando sua nova coleção de plissados quando recebeu uma
notificação de Carlos: Olá,
moça, tudo bem? Como passou o feriado? Espero que seus ovinhos pintados tenham
feito sucesso com as crianças do sul. Quero te ver.
Talita começou a tremer, até desligou a
máquina porque sabia que não conseguiria se concentrar em mais nada. Seu corpo
já estava produzindo impulsos demais.
Isso sempre acontece quando recebe suas
mensagens. Respirou fundo e respondeu: Bom
dia. Tudo bem. A viagem foi ótima. As crianças amaram. Como vai a chuva por aí?
Eu estava terminando o pedido da Lili, mas esse barulhinho de gotas pede
abraço.
Quase
que de imediato o celular vibrou: Então
me abrace.
-Agora?
-Daqui a dez minutos. Te espero.
Beijos!
Talita não sabia aonde isso ia dar. Suas
mensagens eram despretensiosas. Ela pensou apenas estar jogando um jogo de
palavras. Mas não era só isso. Agora ela sairia das telas.
Deixou tudo como estava, colocou a
sandália azul que combinava com seu conjunto floral, tomou um grande gole de
chá e saiu. Não se importaria com a chuva.
Foram os vinte minutos mais longos e
desesperadores da sua vida. Ela sempre passara pela rua dele mas nunca notou
aquela casa, hoje sim.
Talita parou e ficou admirando, pupilas
dilatadas, respiração acelerada. Desceu da bicicleta e a deixou na cerca.
Tocou a campainha e esperou uns dois
minutos. Tempo suficiente para pensar em sair correndo e sumir. No meio do
pensamento a porta se abriu.
A partir daí não se sabe mais o que
aconteceu com aquela baixinha dos cabelos castanhos e molhados pela chuva. Sua
vida virou de cabeça para baixo.
Esqueceu-se de suas convicções,
obrigações, regras, gostos, pessoas. Não lembrava mais quem ela era, tudo se
espalhou na sua cabeça. Peças soltas num universo sem gravidade.
E foi assim, nenhuma palavra, apenas a
entrega.
Como um flash, tudo e nada passou pela sua
mente. Medo, desespero, amor, prazer, desprezo, liberdade. Ela não sabia como
tinha parado ali.
Talita gosta dos olhos de Carlos, mas ela
não sabe se tornará a vê-los.
Aquela
manhã de segunda-feira foi como um flash, um sonho. Ela não sabe como chegou
naquela casa, ela não sabe como saiu. Muito menos sabe o que ali aconteceu. Ela
só sabe que viu o amor, ele tinha a cor mais linda do mundo, mas não teve
coragem.
Certificou-se de desviar o olhar antes que
aqueles penetrantes olhos invadissem o seu coração.
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